segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quando menos se espera...O inusitado.

Seu coração parecia que explodiria a cada vez vez que se encontravam...Há quanto tempo não se sentia assim?  Era como se ela tivesse 17 anos, de novo... O que era tudo aquilo? Não fazia a menor ideia, e na verdade era impossível raciocinar quando ela o via..Percebia que o mesmo acontecia com ele, por Deus! - Como "por Deus"? -  Ela acreditava que não acreditava em nada. Era muito mais fácil não seguir nenhuma religião, nenhum dogma. Se considerava uma pagã, mas mesmo como pagã tinha enormes dúvidas sobre essa entidade, ser, arquétipo ou o que quer que se denominasse Deus...Apenas pressentia que não tinha nenhum controle sobre sua vida..Por mais que planejasse, as coisas nunca saiam do jeito que queria...A teia da vida lhe escapara sempre, e não se lembra quando começou a perceber que adorava aquilo, aquele eterno imprevisível. Então viver era sempre uma enorme aventura. Dizia para si mesma, quando as coisas mudavam totalmente de rumo: "- O que não tem remédio, remediado esta", e seguia os dias até que tudo se ajeitava, numa nova conformação...
O que ele lhe provocava era a descoberta que dentro de si existia um infinito que só ele conhecia. Só ele tinha a chave e quando essa porta se abria, sensações agradáveis percorriam-lhe todas as células de seu corpo, numa explosão de luz e calor. Havia reciprocidade! Desde o início, quando ele lhe propôs uma brincadeira..simplesmente ela aceitou, pois foi como se ele a conhecesse de há muito tempo, como se ele surgisse de dentro dela mesma. Os limites de seu corpo se estendiam só de pensar nele... E no entanto, nunca tinham estado juntos realmente. Mas agora ele lhe enviara um anel. E o inusitado é que o anel lhe serviu, como uma luva. Aaaah, o anel era real...







sábado, 24 de novembro de 2012

Passagem



Tinha chegado a um momento em que tudo o que tinha vivido e aprendido lhe indicava que era hora de uma  mudança... Mais uma vez! Quando achava que já tinha o controle de toda a situação, pronto, era uma coceira... Mas desta vez, estava diferente. Sua percepção sobre as relações estabelecidas em sociedade estavam todas, absolutamente todas, sendo questionadas. Todos os valores cristalizados estavam ruindo. Não sabia aonde aquilo iria dar. Mas era inexorável e assustador! Tudo era-lhe tão inconsistente. Tinha um desejo incontrolável pela transparência, mas ao mesmo tempo, gostaria de estar em outro lugar, em outra dimensão. Queria ser como o ar... Incorpórea. Queria visceralmente o sonho...E quanto mais claro ficava tal possibilidade, maior e profundo o desejo de mudança. Percebia a rapidez de seu raciocínio. Cada vez ficava mais claro que a vida era muito, mas muito mais desafiadora e que aqueles laços estavam se tornando nós. Propunha para si uma nova estrutura, analisava todos os lados de uma questão, não apenas separando-os em duas possibilidades, mas em múltiplas versões. E pensando assim, tudo era válido, inclusive a não existência. Decidiu que a partir dali, aprenderia a morrer. O que era isso? Se tudo se esvai, se tudo lhe escapa entre seus dedos, é porque nada é para se deter. A partir dali, somente o que lhe proporcionasse a liberdade de si mesma e das outras pessoas teria lugar... E a compaixão por todas as tentativas de se eternizar. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Déjà vu

Hoje amanheceu tão nublado, que parecia que o dia transcorreria entre brumas. Foi assim durante toda a manhã. - Um dia sorumbático e melancólico, pensei, enquanto levava minha filha para o trabalho. E no rádio do carro tocava uma música daquelas que nos empurram para dentro de nós... Engraçado, mas agora não me lembro mais qual... Ficou perdida na memória.O fato é que lá pras onze horas (estamos no horário de verão) fui ao quintal de casa para jogar umas cascas de fruta para as galinhas e qual não foi minha surpresa ao me deparar com um céu incrivelmente azul e um sol tão brilhante, mas de uma luz daquela descrita por Drummond no poema O Elefante - que não cega! Sentei-me a admirar aquele espetáculo de dia, sorvendo o ar fresco da manhã de primavera. Ao mirar as montanhas ainda verdes, tive a nítida impressão de que já tinha vivido aquilo... Num instante estava eu a brincar de boneca e casinha debaixo do pé de figo verdinho. Os figos estavam amadurecendo e lá vinha minha mãe com um tacho de cobre para colher alguns - os mais verdes,  para o doce de natal. O quarto de minhas bonecas ficava em cima do pé de figo. Embaixo era a sala de visitas, onde fumávamos elegantemente aqueles raminhos do pé que caiam pelo chão, e falávamos da vida, das crianças e de nossos maridos imaginários. Ao lado da sala ficava a cozinha onde preparava as comidinhas: um bolo de banana cortada em rodelas, com creme de banana amassada e bastante açúcar cristal, que triturávamos satisfeitas durante a tarde. Outra hora era um prato exótico de terra com salsinha do canteiro de mãe...Vizinho ao pé de figo, ficavam as duas goiabeiras: um de goiabas vermelhas e outro de goiabas brancas. A goiabeira branca era uma senhora muito branca e alta e elegante. Seu tronco era delgado e salpicado de manchas brancas e beges, o que proporcionava um magnífico contraste entre suas folhas verdes, vistas de baixo para cima e o céu azul mais ao fundo. Passava horas mirando aquele cenário. Parecia uma catedral em estilo rococó. Era muito difícil de subir nela, mas era um prêmio a vasta visão de lá. A goiabeira vermelha era menor e mais aconchegante e, por diversas vezes, tinha passarinhos como companheiros na disputa de seus frutas maduros. As goiabas, todas, eram docinhas por demais...No canto esquerdo do quintal, ficava a oficina de meu pai, que era eletricista  nas horas vagas. Ali era o futuro. Simplesmente era nossa Nave Espacial! Cheia de telas de TV, botões de todas as qualidades, janelas de madeira e vidro abertas estrategicamente para o planeta. As galinhas eram de Marte, Vênus, e o cachorro Duque, da Lua. E tinha o viveiro de passarinhos coloridos que enchiam a tarde com suas músicas. Eles eram seres especiais, que nos avisavam de perigos que estavam por vir... No meio do quintal e perto do tanque de lavar roupa, ficavam uns tambores enormes de óleo, vazios, que enchíamos de água e era nossa piscina. Do lado esquerdo da casa, existiam pés de rosa, cercadas com câmaras de ar de pneus cortados ao meio, cheios de água ( não existia dengue nas cidades). Ali eu buscava minha varinha de condão e, descalça, conversava horas infindáveis com minha amigas fadas. De nosso quintal avistávamos os outros quintais, onde todos brincavam e nos convidávamos para uma brincadeira qualquer... À noite, uma hora era fogueira, outra hora era pular corda, outra hora era hora de contar estórias de terror, outra hora era hora de show... 


Quantos anos se passaram? E assim, lembrei de outras histórias de infância, de meus irmãos mais velhos, de meus pais, de meus avós...De todas as pessoas do planeta... Meus olhos se encheram de lágrimas e então só agradeci a vida por ter me proporcionado tanto bem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Mistérios...


Não acreditava que fosse voltar...Foi um custo se livrar dela! Por anos a fio acreditou que já estava livre. Acreditava piamente que nunca mais voltaria a encontrá-la. Chegou mesmo a se gabar de ter se desvencilhado daquela confusão...Que estava finalmente protegida. O que não sabia e nem podia imaginar é que ela, uma vez instalada, nunca mais se retira. Ela se cansa, como uma criança quando brinca demais, e adormece em seguida, de exaustão. Mas a qualquer momento, retoma sua sina....Indomável, arrebatadora, envolvente, tirando tudo do lugar, propondo uma nova e intrigante perspectiva... 
Bastou um toque. Um único toque e ela respirou tão fundo... Acordou retomando seu fôlego insaciável... Pronto, ela percebeu o perigo que corria, tentou negociar, perguntando para si mesma, todo o tempo, que besteira era aquela? Como permitia que ela retomasse seu curso alucinado? Olhou-se no espelho e viu, no fundo de seus próprios olhos o sorriso zombeteiro daquela que lhe que tirava o sono, mas que lhe proporcionava momentos alucinadamente deliciosos, seduzindo sua vontade com mimos, afagos óbvios, tecendo uma trama de inacessível decifrar, porque não lhe fazia parte o raciocínio. Era impossível resistir à sua gargalhada debochada, à sua incrível  capacidade de pintar tudo com cores tão vibrantes, ao seu perfume arrebatador, à sua música inebriante. Seu corpo todo vibrava, misturando alegria e dor.  Ela ouvia melhor o vento. Ela era como ele na sua mania de virar tudo de pernas para o ar e...Partir! Não havia nada a fazer agora a não ser aceitar seu convite e seguir viagem, esperando o momento em que ela,exausta, adormeceria. Poderia se transformar em amor? 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Imprevisível...


A preparação para uma viagem é um acontecimento que deveria seguir um roteiro. Na verdade, sempre estabeleci uma série de passos a serem dados. Viajei tanto que virou rotina.
Mas dessa vez, foi diferente. 
Não consegui me decidir nem sobre o que levar. Sabia que iria. Imaginei-me no lugar...Deveria ter prestado mais atenção aos sinais me alertando que, talvez, não fosse sair do jeito planejado. Primeiro, ao observar a meteorologia, percebi variações enormes entre a alta e a baixa temperaturas. Isso importa quando quando vamos  fazer a mala de viagem...Com tamanha variação, decidi levar roupas quentes e frias...Depois, não conseguia me decidir sobre a volta...Resolvi que o melhor seria dar uma folga entre o fim do roteiro e minha partida. Contava encontrar com amigos, mesmo sabendo que os retornos foram vagos e que até mesmo não houve retorno por parte de alguns. Deveria mesmo ter retrocedido. Mas, sou um tanto curiosa e acredito que sempre vale a pena tentar algo novo. No dia da partida, amanheci com uma leve dor no pescoço. Não dei importância. Arrumei-me, levei minha filha ao trabalho, fui à academia, escrevi um texto sobre mim...E a dor só aumentando. Analgésico em cima. A mala por fazer....Faltando quarenta minutos para partir é que fui fazer a mala. Sem tempo para me decidir sobre o que levar, fiz o que toda mulher maluca faz: coloquei tudo o que coube na mala: roupas quentes e frias aos montes, sapatos e sandálias, secador de cabelo, netbook, livros, maquiagem e etc, etc... A mala ficou pesando uma tonelada, mas ficou pronta a tempo. O táxi chegou vinte minutos antes da partida do ônibus. Estava pronta para mais uma trilha num lugar totalmente desconhecido. O frio na espinha me animava a seguir em frente...Pronta??
Bem, deixei para atrás o cantil, a lanterna, o boné. Itens de primeiríssima necessidade. E o maiô! Como pude?
Pensei: compro lá. Bem...


sábado, 11 de agosto de 2012

Fulosina, meu anjo.

Pessoas...Existem algumas muito especiais. Transitam por nossas vidas de uma forma tão delicada que nos ajudam a caminhar mais crentes que realmente anjos existem. Fulosina (esse é o verdadeiro nome dela) chegou em nossa casa há quase trinta anos para lidar com os afazeres domésticos e ajudar minha mãe com os serviços da casa: arrumar, lavar, passar, cozinhar. Minha mãe sempre teve como lema que, uma vez explicado e entendido o que fazer, delega-se e cada um respeita o combinado. Jamais foi de regrar o que consumir, fosse com os produtos de limpeza, da casa ou pessoal, fosse com a alimentação. "Onde cabem dois, cabem mais, se houver necessidade". E assim se fez. Fulosina seguiu desenvolvendo com capricho as atividades, mantendo uma rotina que nos permitia nossa própria rotina de trabalho e estudo. Minha filha era recém-nascida e Fulosina tinha filhos quase que da mesma idade que ela e, às vezes, eles vinham com ela para nossa casa. As crianças brincavam juntas, e às vezes, minha filha ia dormir na casa da Fulô. Mas isso, segundo ela mesma, era muito tranquilo. Tinha passado por maus pedaços na vida antes de vir trabalhar em nossa casa. O pai não a permitiu estudar. O marido a deixou com dois filhos pequenos e foi embora para São Paulo...Então teve que se virar e criar os meninos sozinha. Disse-me que nessa época, morou em um barraco de lona, na beira de um córrego. Os adultos de sua casa tinham que sair para trabalhar. Não tendo com quem deixar as crianças, e necessitando muito trabalhar, temendo que ficassem na rua, ela os deixava em casa com uma missão: separar os grãos de feijão, milho e arroz que ela despejava numa grande peneira...Assim fazia todos os dias...Com o tempo, mudaram para uma casa melhor, em outro bairro de periferia.  Sempre a admirei por sua sabedoria: ao fazer isso com as crianças, ela os ajudou a desenvolver a coordenação motora-fina, a atenção e o senso de responsabilidade...Agora, são adultos, responsáveis. Ela se tornou avó. Esta quase aposentando aqui em casa. Nunca faltou ao trabalho, a não ser por causa de uma doença ou outra. Há dois anos, quando fiquei viúva e voltei a morar com meus pais, ficou apreensiva com o súbito aumento de serviço. Percebi logo pela sua expressão apreensiva ao me ver chegar com a pouca mudança, uma vez que me desfiz de quase tudo de minha casa. Ficou tranquila quando lhe garanti que teria uma ajudante nos serviços. Daí veio a irmã dela para ajudá-la duas vezes por semana. Dois anjos em nossas vidas. Minha mãe anda esquecida a contar as mesmas histórias de vida para elas. Elas as escutam sempre com aquele ar de surpresa, como se tudo o que ouvissem fosse a maior novidade, ao mesmo tempo em que oferecem um cafezinho novo, ou uma saladinha de frutas para ela. Elas piscam os olhos, em segredo, e sorriem. São de uma delicadeza ímpar... Nossas histórias se misturaram e realmente é uma benção conviver com as duas. Só tenho a agradecer, sempre!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Fênix?

"Esta decidido: quero morrer. Assim, sem exclamação, interrogação, reticências ou qualquer sinal outro que levante dúvidas sobre minha imperativa decisão. Quero desfazer-me de mim. Estou cansada. Preciso parar em definitivo. Chega. Basta. É um cansaço imenso de sempre ter que explicar-me a que vim. Não vim. Abri os olhos e vislumbrei uma janela entreaberta e decidi ir ficando. Mas cheguei ao meu limite nesse mundo. O que posso fazer? E já sei como fazer para que desfazer-me. Não falo. Emudeço-me. Se no princípio era o verbo, o fim é o não verbo. Nada de palavras. Nada de gestos. Nada de olhares. Nada de toques. A partir de agora serei apenas corpo a vagar até que um dia a Terra me absolva e livre-me de mim.
Por mais que peçamos, os mortos jamais retornam. Nem cheiro, nem um sopro dos seres que circularam cá. Isso é muito bom! Dívidas, doenças, vícios, desamores...Nada mais. Amores, esperanças, dias de sol e chuva...Nunca mais. E para quê afinal? Nada de respostas...Perguntas aos milhões...E o eco de mim como resposta...
Não quero mais morrer! Serei eterna em mim mesma. Outras trilhas se avizinham....Não há o que fazer a não ser seguir."