quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Bordas.

 "Para ser tolerante é preciso fixar os limites do intolerável", frase do instigante e, para mim fascinante escritor Humberto Eco. Por outro lado, Voltaire, filósofo iluminista, raciocinou: "- Posso não concordar com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las". Essas máximas me vem à cabeça quando observo acontecimentos de explícita intolerância ao diferente, ao que não faz parte do status quo (estabelecido sabe Deus como). 


Tenho a impressão que a atmosfera plúmbea dos anos 30 do século passado está a dar o ar fétido de sua graça: intolerâncias, xenofobias, racismos e mentiras espalhadas em redes. Características desse sistema discordante e avesso a ações despretensiosas, refratário em descobrir e espalhar misericórdias...Sem pieguices. Ignorante do fato daquilo que nos é fundante: diversidades. Caso contrário todas essas manifestações não estariam, mais uma vez, salientes e sequiosas em se exibir. 

Em tempo: há que considerarmos o tempo, ou período em que cada um dos citados nessa brevíssima reflexão as conceberam e nos repassaram - Voltaire, lá do século 18, nos mostrou o quão árdua e importante foi a luta contra o absolutismo monárquico. Humberto Eco, nosso contemporâneo, nos brindou com essa pérola no livro "Migração e Intolerância", publicado por aqui em 2020.

Entre Humberto e Voltaire, pendo pro Eco, em defesa, sempre, da liberdade!

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Acorda, Alice.

Pela janela vejo a parede amarela de um prédio, um pedaço de um morro, verdinho, e uma avenida, e telhados..e lá em cima, o céu azul, fundo, com nuvens..brancas. Na parede amarela eu abro um horizonte, como o abro pra qualquer lugar aonde giro meus olhos. Descubro: o horizonte fica dentro de mim. A esperança..também. Esperança de dias largos, de alegrias juvenis, de vento no rosto de sorriso solto e largo. Você pode andar..por aí, sem medo de se machucar, porque o mundo é leve, livre, e bom. Como o sol que aquece as manhãs no inverno. 
No entanto...A parede amarela se impõe e me mostra que é hora de fazer por onde.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Quando o silêncio fala.

Lourdinha e Lúcia. Em dois momentos únicos, porém semelhantes, essas duas amigas tiveram uma presença importante na minha vida. A primeira, na inesperada primeira morte vivida tão perto..dentro de meu coração: meu irmão Clebinho se foi..tão novo e sério e apavorado. A segunda, numa morte anunciada: meu amado marido Devanir partiu desse mundo..tão cansado de sofrer, tão resignado depois de tanta luta e impotência diante da incapacidade imposta no auge de sua força e produtividade.  
Nessas duas ocasiões elas me ampararam apenas segurando minha mão. 
Silêncio..aquele que nos fala que não estamos sozinhas na dor..na qual a inimiga morte nos determina o limite, e que nos aponta o elo fulgurante da vida. 
Duas presenças silenciosas e reconfortantes. Obrigada. 
Ouvindo BB King the blues...

https://youtu.be/tR8Vykz3UuY


terça-feira, 26 de abril de 2016

Aposentadoria

30 anos, 03 meses, 13 dias ou 11053 dias. Esse foi o tempo trabalhado para os "outros".  Será que somos os donos de nosso tempo? Comecei a trabalhar em 1984, na antiga Diretoria Regional de Saúde de Itabira. Minha filha ia fazer dois aninhos e eu estava um tanto atordoada pelos os últimos acontecimentos de minha vida - talvez um dia escreverei sobre esse período. Lembro-me, não com precisão de quem falara comigo ao telefone. Mas foi numa quinta-feira, à tarde, que alguém me ligou e falou pra que eu fosse no outro dia, pela manhã, na rua Major Paulo, 45, perto da Igrejinha
do Rosário. Fui. E, a partir daí, passaram-se esses 30 anos. O que é uma vida? Então, agora tenho todo o tempo para me ocupar de mim..de me empoderar. Essa é uma sensação muito, muito boa mesmo. Sempre falei para meus alunos sobre um estudo da neurociências que dizia que saber ler é fundamental, não apenas para entender o mundo, mas entender o conceito de passividade, de receptor. Sem isso, você não consegue alcançar, a contento, a próxima fase de seu empoderar-se, ao conseguir escrever suas visões de mundo. Ali estava o grande lance da comunicação humana. E saber que podemos nos expressar em diversos meios, é muito instigante. Uma coisa é certa, neste momento meu corpo me dá sinais claros de que o tempo dele está começando o seu próprio fim. Uau! 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Fragmentos de um diário...

E assim..de memórias entrecortadas ia tecendo, sobre si, sua história. Recortes de realidades diversas e, no entanto, iguais..girando... 
- O que há além do círculo?
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A verdadeira magia acontece quando você toma sua vida em suas mãos. E tanto mais verdadeiro o sonho se torna quanto mais formos solidários em nossas diferenças... O que nos une é sermos únicos. 
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Quando minha filha veio ao mundo, eu não pensava em nada, especificamente, para ela. Eu pensava: minha filha é "uma tela em branco" na qual ela mesma terá que se construir. Eu apenas a apoiaria, se ela assim o quisesse. Quando a vi, seu nome iluminou minha mente: ALICE. E eu a amei mais que tudo que havia amado antes. E é para o resto de meus dias. 
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"Essa máquina mata fascistas". Arlo Gutrie, sobre sua guitarra.

" A ciência comprova que é o silêncio que mata as pessoas..."  Esqueci de anotar de onde tirei essa frase, mas me faz sentido.
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E o que direi? É melhor ir, seguir em frente, indo aonde a estrada me levar e ver o mundo, pensar os meus olhos, do que ficar e orar. "- O que você fez ontem? - Orei. - E o que faz agora? - Oro!
Oro e vejo milagres de encontros, vejo lágrimas pelos que se foram, mãos que se unem em nome da vida, crianças que nascem, amores que se casam..para sempre?
- E nós, eu e você e todos que se encantam pelo inesperado brilho das estrelas, da inebriante luz do luar e aquele ar das manhãs.
- O que nos une? O que nos diferencia nos separa, ou nos une?

segunda-feira, 10 de março de 2014

Aaaah ...Talvez!

Não. .escrever não é fácil não.  Além da idéia dar o ar de sua graça,  necessário é disciplina. Mas,  não a disciplina das casernas. Digo da disciplina do eu. O eu é egoísta.  Tem os olhos voltados para si mesmo.  E escrever é um ato de entrega e troca.  Não mesmo.  Escrever é viver o outro e sua visão de mundo.  Mas não  como espelho. Mas reconhecer o olhar do outro como diverso e complementar ao seu.  Será?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Nada!

Aaaaaaaaaaaaaahh   alguém já disse ..tuuuuuuuuudo...O que mais podemos dizer sobre o Amor???????
Nada! Para cada um de nós ele é algo que nos completa. ELE É O QUE NOS FALTA..
Agora  eu talvez entenda que aqui, ele não, nunca será... Não, ele será SEMPRE uma possibilidade. Aaaaah minha criança..você talvez aprenda a seguir os seguros caminhos trilhados por outrem... Por que esta busca incessante pelo inusitado, pelo nunca dantes trilhado? Minha doce criança, entenda de uma vez por todas: - Você NÃO existe.!
Você, talvez seja apenas a imaginação de um criador maluco, que, não tendo algo melhor para fazer, num domingo pela manhã ( mais uma vez o seu orgulho imbecil de querer ser única!!!)  tenha rabiscado alguém assim..estranha a si mesma..........................
Por que seu pai comprou para você, nos anos 70, The dark side of the moon? Me lembro!: Meu pai me perguntou: -  O que você quer de presente quando eu voltar de São Paulo? A única coisa que me vinha a cabeça era o vídeo, em preto e branco. que eu tinha visto na tv de uma música INCRÍVEL que mostrava as ruínas de Pompéia.. Foi numa tarde calourenta de verão, talvez..Mas aquilo me falou tão fundo que nunca mais me esqueci daquela tarde quente, modorrenta  e.. SOLITÁRIA. Não importa mais a data exata.. O caso é que meu pai me deu de presente, talvez no ano de seu lançamento, em 1973, o the dark side of the moon.. Escutei, primeiramente com ele ( meu pai era eletricista e construía radiolas e adorava ouvir sons estranhos e inusitados para testar suas construções) cada faixa do disco do disco que tenho até hoje, e com o seu nome escrito de próprio punho.. e depois o escutei até quase furar o vinil.
Nunca mais eu gostaria de trilhas fáceis e. ao mesmo tempo, eu desejaria, ardentemente, a facilidade. O que é ser fácil e previsível para você, meu benzinho?..
É adorar ser aceitável. É tão melhor e confortável... Nunca se sentir em falta de si mesma, sempre me sentir segura em ser igual, comum e previsível.. - Tá sem sono, meu amor? Temos uma pílula ótima para isso...! Tá sem tesão minha linda? Temos uma pílula que é um primor para casos em que o tesão não vem de jeito nenhum... Ah, seu corpo é tão estranho..seu peito não é assim lindo, mas podemos transformá-lo eu algo esteticamente perfeito...você perde totalmente a sensibilidade, mas o que é isso afinal?
Não! Não para mim. Se não fosse o inusitado, pouca serventia teria.
Há quanto tempo você não sente o mar, meu anjo? - Não me lembro mais.. Talvez eu jamais o tenha deixado..talvez ele sempre fez  parte de mim..porque eu o posso respirar e sentir a brisa e o som que que ele emite... Eu o sinto respirar e eu vou levar para sempre comigo..AAaaaaaaaaaaaah..sim.. e o vento!! 
Ele é feito de de uma substância tão comum mas, ao mesmo tempo, desconhecida de nós... 
Mas quando meus pés, descalços, pisaram esta terra, eu a amei profundamente.. E quando me for levarei o seu perfume
Nunca desejei sentir tanto o perfume desta terra como agora.



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Excertos...

" O Pensar e o Sentimento

Grande parte de nossas vidas é isenta de reflexão e sentimentos transformados em ato, e a capacidade de pensar fica submetida às contingências naturais da vida... 
Como filosofar, questionar se a imposição da rotina do dia-a-dia nega a privacidade? Como valorizar o questionar, se a clareza do questionamento exige ética e a ética é uma tragédia para o ego?
O pensar é uma atividade involuntária, impulsivo, não temos controle sobre os estímulos externos e internos, que desencadeiam o pensamento. Contudo, o pensamento organizado, dirigido, suas dimensões dialéticas e analíticas, junto ao desdobramento do sentimento transformado em ato, ( realização) é arte. É o esforço humano, pela razão, para dar conta dos afetos mobilizados pelo real.
..a vida sem "reflexão ativa" (filosofia) e sem busca da autonomia, do "se saber" (psicologia), é ainda uma vida sem existir.
Muito poderiam fazer os pais, se compreendessem que a educação necessita de....orientações culturais, objetos culturais que possam educar veiculando a interioridade, a extração sublimar dos símbolos e valores.
...a repetitividade auto-justificável do dia-a-dia mascara a falta, o vazio, justificando qualquer mediocrização...
A falta de crítica e de auto-crítica engessa o homem, em determinadas formas de poder, de vontades de poder em que, nada agrega à sua própria construção, enquanto humano.
A falta de consciência e reflexão de si, leva o homem a buscar poder e controle, justamente pela falta de controle de si próprio, pois não tendo controle sobre os conteúdos da identidade (já degradados), começa a controlar o semelhante (o outro) na ânsia de manter a arcaica fantasia de perfeição, bem como manter uma falsa imagem de plenitude.
O pensamento cartesiano nos diz: "penso, logo existo". Mas antes de pensar, sentimos, somos afetados. Os pensamentos são, assim como os sentimentos, uma forma de organização dos afetos.
Não são os pensamentos que levam e levaram os homens aos atos de coragem, de ética e que mobilizaram as mudanças culturais e morais. O intelectualismo radical e o sentimentalismo sem comoção, torna-se mais uma fuga que uma construção, acarretando insensibilidade, ou ainda, "o especialista sem espírito" e o "sensualista sem coração".
A base de toda mobilização do homem, no mundo, sempre foi emotiva, o pensamento somente se constrói diante das manifestações emocionais. Claro que, em uma época em que o termo compaixão cai no ridículo, nos é mais difícil ainda dizer algo sobre "o pensar o sentimento", até que uma farpa atinja nossas almas.
Depois de mais de 2000 anos a.C. "conheça a ti mesmo" não foi entendido. 
O pensamento constrói estrada onde o afeto abre caminho."

                                                        in: OLIVEIRA, Alexssandro. Quando o passado acabar: ensaio contemporâneo sobre estados arcaicos. Ed. Publique Composição e Arte Final Ltda. Belo Horizonte. p 51 /54.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sutilmente...

A Campanha de Prevenção do Câncer de Mama me fez recordar algo que aconteceu comigo.. E como a memória sempre faz com a gente, fui lembrar de outro fato ocorrido  há muito tempo...

Éramos três amigos de juventude e muito aventureiros... Haveria uma festa popular na vizinha cidade de Ferros... Muito curtida por todos, acredito que até hoje. Festa religiosa e cheia de músicos e grupos folclóricos. Todo mundo iria, mas eu e minha amiga e meu amigo, não tínhamos dinheiro para ir e vir de ônibus, e muito menos para hospedagem. Ficamos ali, matutando o que fazer, até que meu amigo falou: -Vamos de ônibus e lá arranjamos carona para voltar. Vamos encontrar com todo mundo lá, sempre tem lugar. - E para dormir? perguntamos. - Ora, dormimos na prainha! Nos entreolhamos e não deu outra:  cada um pegou o que julgava necessário para um dia literalmente fora de casa, e fomos. Quando chegamos em Ferros, era de tardezinha. A cidade, pequena, em 78, estava lotada, alegre, festiva..Caminhamos até tarde da noite, bebericamos em um bar e rumamos para a tal prainha.. A noite estava linda, estrelada, quente. E o barulho do rio era hipnótico. Acendemos uma boa fogueira e ficamos ali, deitados os três numa esteira e enrolados cada um num cobertor e mirando o céu estreladíssimo.. Acampamos perto da ponte que liga os dois lados da cidade e onde passaria a procissão.. Ficamos assistindo aquilo tudo acontecer e conversando sobre os significados da vida e outras conversas de malucos. Noite mágica. O dia amanheceu muito lindo, como sempre. E tocamos a caminhar pelo bosque no entorno do rio, enquanto a festa rolava na cidade próxima. Passou-se a manhã e resolvemos ir embora, eu e minha amiga, pois o nosso amigo quis ficar mais. Fomos mais cedo para a estrada pegar carona, pois vimos que o tempo estava virando para chuva. Em pouco tempo, conseguimos uma carona num fusca branco com dois rapazes, muito louquinhos. A estrada ainda era de terra e eles corriam muito. Começou a chover e, não sei explicar, mas o espelho retrovisor do fusca caiu. Como eles corriam muito, rapidamente o espelho ficou longe. Daí o motorista cismou de voltar para pegar o tal espelho. Ele nos olhou e falou: - Se vocês quiserem descer e pegar outra carona, tudo bem. E se não conseguirem, eu pego vocês na volta, ok? - Ok! respondemos e descemos do carro. Chovia e minha amiga tirou uma sombrinha de dentro da mochila. Rimos muito da situação e fomos caminhando estrada a fora. Para nossa surpresa, os caras voltaram  e não pararam. Passaram por nós numa velocidade absurda. Ficamos desoladas, mas seguimos em frente, até que uma outra carona apareceu. Quando chegamos a Santa Maria, vimos o fusca enfiado no meio de um poste, todo arrebentado e ficamos sabendo que o motorista havia morrido e o seu amigo estava mal.. Eu e minha amiga nos olhamos e agradecemos a algo que não sabíamos o quê, por ter nos livrado daquilo.
Em 2008, eu estava casada, e numa tarde alguma coisa me disse: marca uma consulta com sua médica. Meu marido era tetraplégico e eu sempre o levava ao médico, mas nunca eu ia consultar, pois não sentia nada. Sem pestanejar, liguei para minha médica e como um milagre, consegui uma consulta rapidamente, alguém havia desistido. Saí de lá com um encaminhamento de mamografia, pois havia quatro anos que não consultava. Fiz o exame, e tive que repetir. Fiquei injuriada de ter que refazer o tal exame, dolorido, mas me informaram que não tinha ficado bem. Assim que levei para minha médica, ela me informou que eu deveria ir a um mastologista em Belo Horizonte. Pensei: mas que preguiça!  Estranhamente as consultas foram uma seguida da outra. O mastologista marcou uma biópsia e eu entrei numa espécia de piloto automático.. Era como se nada daquilo estivesse acontecendo comigo. A biópsia é uma pequena cirurgia, mas com anestesia geral. O resultado deu positivo: era um câncer de 0,3 milímetros... Ele saiu todo no material colhido para o exame. Meu mastologista, que é da minha idade, me disse: - Lilian, agradece a sua médica, a Deus e vá tomar uma cerveja!!! Esse ano é o último ano de controle, e até agora ele não voltou. Mas algo me diz que passou. Obrigada, obrigada, obrigada!


sábado, 2 de março de 2013

Fé.

Segundo o dicionário Aurélio, Fé pode ser crença religiosa ou valores espirituais; conjuntos de dogmas e doutrinas que constituem um culto; adesão ou anuência pessoal a Deus e seus desígnios... Reconheço e compreendo que diante do mistério da vida, faço parte desse mistério e ao mesmo tempo o mistério existe, ad eternum, independente de minha fugaz existência. Deus como o Princípio Criador, ao mesmo tempo masculino e feminino, algo que nos ampara nas travessias sombrias, sim, eu creio que exista. Não sei se ocorre com todos, mas existe uma voz, muito sutil, que  me diz: - Vá! E quando isso me acontece, simplesmente não tenho como fugir. E são caminhos nos quais eu não gostaria mesmo de passar. Essa voz fala pouco, muito pouco comigo. Mas quando fala, é imperativo que eu a siga...São trilhas que me trazem sofrimentos, mas que ao mesmo tempo, geram um aprendizado importante sobre eu mesma e sobre as pessoas que participam, de algum modo, dessas travessias. E enquanto a sigo, sinto-me tão pequena diante dos cenários tristes, sombrios e pesados, tão incrivelmente só, que se não acreditasse  que um resgate, ao mesmo interno e externo, existisse, não teria sobrevivido... Esse "resgate" é Deus, para mim.
Sinceramente porém, não creio em dogmas religiosos, porque entendo que fazem parte de um plano muito humano, sem nos ligar ao que é sagrado, sem nos indicar que somos todos iguais em nossa finitude. Afora todo o arranjo institucional, permeado de vaidades e interesses estranhos ao divino...
Minha fé nesse princípio é maior que minhas dúvidas existenciais, e elas são tantas...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quando menos se espera...O inusitado.

Seu coração parecia que explodiria a cada vez vez que se encontravam...Há quanto tempo não se sentia assim?  Era como se ela tivesse 17 anos, de novo... O que era tudo aquilo? Não fazia a menor ideia, e na verdade era impossível raciocinar quando ela o via..Percebia que o mesmo acontecia com ele, por Deus! - Como "por Deus"? -  Ela acreditava que não acreditava em nada. Era muito mais fácil não seguir nenhuma religião, nenhum dogma. Se considerava uma pagã, mas mesmo como pagã tinha enormes dúvidas sobre essa entidade, ser, arquétipo ou o que quer que se denominasse Deus...Apenas pressentia que não tinha nenhum controle sobre sua vida..Por mais que planejasse, as coisas nunca saiam do jeito que queria...A teia da vida lhe escapara sempre, e não se lembra quando começou a perceber que adorava aquilo, aquele eterno imprevisível. Então viver era sempre uma enorme aventura. Dizia para si mesma, quando as coisas mudavam totalmente de rumo: "- O que não tem remédio, remediado esta", e seguia os dias até que tudo se ajeitava, numa nova conformação...
O que ele lhe provocava era a descoberta que dentro de si existia um infinito que só ele conhecia. Só ele tinha a chave e quando essa porta se abria, sensações agradáveis percorriam-lhe todas as células de seu corpo, numa explosão de luz e calor. Havia reciprocidade! Desde o início, quando ele lhe propôs uma brincadeira..simplesmente ela aceitou, pois foi como se ele a conhecesse de há muito tempo, como se ele surgisse de dentro dela mesma. Os limites de seu corpo se estendiam só de pensar nele... E no entanto, nunca tinham estado juntos realmente. Mas agora ele lhe enviara um anel. E o inusitado é que o anel lhe serviu, como uma luva. Aaaah, o anel era real...







sábado, 24 de novembro de 2012

Passagem



Tinha chegado a um momento em que tudo o que tinha vivido e aprendido lhe indicava que era hora de uma  mudança... Mais uma vez! Quando achava que já tinha o controle de toda a situação, pronto, era uma coceira... Mas desta vez, estava diferente. Sua percepção sobre as relações estabelecidas em sociedade estavam todas, absolutamente todas, sendo questionadas. Todos os valores cristalizados estavam ruindo. Não sabia aonde aquilo iria dar. Mas era inexorável e assustador! Tudo era-lhe tão inconsistente. Tinha um desejo incontrolável pela transparência, mas ao mesmo tempo, gostaria de estar em outro lugar, em outra dimensão. Queria ser como o ar... Incorpórea. Queria visceralmente o sonho...E quanto mais claro ficava tal possibilidade, maior e profundo o desejo de mudança. Percebia a rapidez de seu raciocínio. Cada vez ficava mais claro que a vida era muito, mas muito mais desafiadora e que aqueles laços estavam se tornando nós. Propunha para si uma nova estrutura, analisava todos os lados de uma questão, não apenas separando-os em duas possibilidades, mas em múltiplas versões. E pensando assim, tudo era válido, inclusive a não existência. Decidiu que a partir dali, aprenderia a morrer. O que era isso? Se tudo se esvai, se tudo lhe escapa entre seus dedos, é porque nada é para se deter. A partir dali, somente o que lhe proporcionasse a liberdade de si mesma e das outras pessoas teria lugar... E a compaixão por todas as tentativas de se eternizar. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Déjà vu

Hoje amanheceu tão nublado, que parecia que o dia transcorreria entre brumas. Foi assim durante toda a manhã. - Um dia sorumbático e melancólico, pensei, enquanto levava minha filha para o trabalho. E no rádio do carro tocava uma música daquelas que nos empurram para dentro de nós... Engraçado, mas agora não me lembro mais qual... Ficou perdida na memória.O fato é que lá pras onze horas (estamos no horário de verão) fui ao quintal de casa para jogar umas cascas de fruta para as galinhas e qual não foi minha surpresa ao me deparar com um céu incrivelmente azul e um sol tão brilhante, mas de uma luz daquela descrita por Drummond no poema O Elefante - que não cega! Sentei-me a admirar aquele espetáculo de dia, sorvendo o ar fresco da manhã de primavera. Ao mirar as montanhas ainda verdes, tive a nítida impressão de que já tinha vivido aquilo... Num instante estava eu a brincar de boneca e casinha debaixo do pé de figo verdinho. Os figos estavam amadurecendo e lá vinha minha mãe com um tacho de cobre para colher alguns - os mais verdes,  para o doce de natal. O quarto de minhas bonecas ficava em cima do pé de figo. Embaixo era a sala de visitas, onde fumávamos elegantemente aqueles raminhos do pé que caiam pelo chão, e falávamos da vida, das crianças e de nossos maridos imaginários. Ao lado da sala ficava a cozinha onde preparava as comidinhas: um bolo de banana cortada em rodelas, com creme de banana amassada e bastante açúcar cristal, que triturávamos satisfeitas durante a tarde. Outra hora era um prato exótico de terra com salsinha do canteiro de mãe...Vizinho ao pé de figo, ficavam as duas goiabeiras: um de goiabas vermelhas e outro de goiabas brancas. A goiabeira branca era uma senhora muito branca e alta e elegante. Seu tronco era delgado e salpicado de manchas brancas e beges, o que proporcionava um magnífico contraste entre suas folhas verdes, vistas de baixo para cima e o céu azul mais ao fundo. Passava horas mirando aquele cenário. Parecia uma catedral em estilo rococó. Era muito difícil de subir nela, mas era um prêmio a vasta visão de lá. A goiabeira vermelha era menor e mais aconchegante e, por diversas vezes, tinha passarinhos como companheiros na disputa de seus frutas maduros. As goiabas, todas, eram docinhas por demais...No canto esquerdo do quintal, ficava a oficina de meu pai, que era eletricista  nas horas vagas. Ali era o futuro. Simplesmente era nossa Nave Espacial! Cheia de telas de TV, botões de todas as qualidades, janelas de madeira e vidro abertas estrategicamente para o planeta. As galinhas eram de Marte, Vênus, e o cachorro Duque, da Lua. E tinha o viveiro de passarinhos coloridos que enchiam a tarde com suas músicas. Eles eram seres especiais, que nos avisavam de perigos que estavam por vir... No meio do quintal e perto do tanque de lavar roupa, ficavam uns tambores enormes de óleo, vazios, que enchíamos de água e era nossa piscina. Do lado esquerdo da casa, existiam pés de rosa, cercadas com câmaras de ar de pneus cortados ao meio, cheios de água ( não existia dengue nas cidades). Ali eu buscava minha varinha de condão e, descalça, conversava horas infindáveis com minha amigas fadas. De nosso quintal avistávamos os outros quintais, onde todos brincavam e nos convidávamos para uma brincadeira qualquer... À noite, uma hora era fogueira, outra hora era pular corda, outra hora era hora de contar estórias de terror, outra hora era hora de show... 


Quantos anos se passaram? E assim, lembrei de outras histórias de infância, de meus irmãos mais velhos, de meus pais, de meus avós...De todas as pessoas do planeta... Meus olhos se encheram de lágrimas e então só agradeci a vida por ter me proporcionado tanto bem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Mistérios...


Não acreditava que fosse voltar...Foi um custo se livrar dela! Por anos a fio acreditou que já estava livre. Acreditava piamente que nunca mais voltaria a encontrá-la. Chegou mesmo a se gabar de ter se desvencilhado daquela confusão...Que estava finalmente protegida. O que não sabia e nem podia imaginar é que ela, uma vez instalada, nunca mais se retira. Ela se cansa, como uma criança quando brinca demais, e adormece em seguida, de exaustão. Mas a qualquer momento, retoma sua sina....Indomável, arrebatadora, envolvente, tirando tudo do lugar, propondo uma nova e intrigante perspectiva... 
Bastou um toque. Um único toque e ela respirou tão fundo... Acordou retomando seu fôlego insaciável... Pronto, ela percebeu o perigo que corria, tentou negociar, perguntando para si mesma, todo o tempo, que besteira era aquela? Como permitia que ela retomasse seu curso alucinado? Olhou-se no espelho e viu, no fundo de seus próprios olhos o sorriso zombeteiro daquela que lhe que tirava o sono, mas que lhe proporcionava momentos alucinadamente deliciosos, seduzindo sua vontade com mimos, afagos óbvios, tecendo uma trama de inacessível decifrar, porque não lhe fazia parte o raciocínio. Era impossível resistir à sua gargalhada debochada, à sua incrível  capacidade de pintar tudo com cores tão vibrantes, ao seu perfume arrebatador, à sua música inebriante. Seu corpo todo vibrava, misturando alegria e dor.  Ela ouvia melhor o vento. Ela era como ele na sua mania de virar tudo de pernas para o ar e...Partir! Não havia nada a fazer agora a não ser aceitar seu convite e seguir viagem, esperando o momento em que ela,exausta, adormeceria. Poderia se transformar em amor? 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Imprevisível...


A preparação para uma viagem é um acontecimento que deveria seguir um roteiro. Na verdade, sempre estabeleci uma série de passos a serem dados. Viajei tanto que virou rotina.
Mas dessa vez, foi diferente. 
Não consegui me decidir nem sobre o que levar. Sabia que iria. Imaginei-me no lugar...Deveria ter prestado mais atenção aos sinais me alertando que, talvez, não fosse sair do jeito planejado. Primeiro, ao observar a meteorologia, percebi variações enormes entre a alta e a baixa temperaturas. Isso importa quando quando vamos  fazer a mala de viagem...Com tamanha variação, decidi levar roupas quentes e frias...Depois, não conseguia me decidir sobre a volta...Resolvi que o melhor seria dar uma folga entre o fim do roteiro e minha partida. Contava encontrar com amigos, mesmo sabendo que os retornos foram vagos e que até mesmo não houve retorno por parte de alguns. Deveria mesmo ter retrocedido. Mas, sou um tanto curiosa e acredito que sempre vale a pena tentar algo novo. No dia da partida, amanheci com uma leve dor no pescoço. Não dei importância. Arrumei-me, levei minha filha ao trabalho, fui à academia, escrevi um texto sobre mim...E a dor só aumentando. Analgésico em cima. A mala por fazer....Faltando quarenta minutos para partir é que fui fazer a mala. Sem tempo para me decidir sobre o que levar, fiz o que toda mulher maluca faz: coloquei tudo o que coube na mala: roupas quentes e frias aos montes, sapatos e sandálias, secador de cabelo, netbook, livros, maquiagem e etc, etc... A mala ficou pesando uma tonelada, mas ficou pronta a tempo. O táxi chegou vinte minutos antes da partida do ônibus. Estava pronta para mais uma trilha num lugar totalmente desconhecido. O frio na espinha me animava a seguir em frente...Pronta??
Bem, deixei para atrás o cantil, a lanterna, o boné. Itens de primeiríssima necessidade. E o maiô! Como pude?
Pensei: compro lá. Bem...


sábado, 11 de agosto de 2012

Fulosina, meu anjo.

Pessoas...Existem algumas muito especiais. Transitam por nossas vidas de uma forma tão delicada que nos ajudam a caminhar mais crentes que realmente anjos existem. Fulosina (esse é o verdadeiro nome dela) chegou em nossa casa há quase trinta anos para lidar com os afazeres domésticos e ajudar minha mãe com os serviços da casa: arrumar, lavar, passar, cozinhar. Minha mãe sempre teve como lema que, uma vez explicado e entendido o que fazer, delega-se e cada um respeita o combinado. Jamais foi de regrar o que consumir, fosse com os produtos de limpeza, da casa ou pessoal, fosse com a alimentação. "Onde cabem dois, cabem mais, se houver necessidade". E assim se fez. Fulosina seguiu desenvolvendo com capricho as atividades, mantendo uma rotina que nos permitia nossa própria rotina de trabalho e estudo. Minha filha era recém-nascida e Fulosina tinha filhos quase que da mesma idade que ela e, às vezes, eles vinham com ela para nossa casa. As crianças brincavam juntas, e às vezes, minha filha ia dormir na casa da Fulô. Mas isso, segundo ela mesma, era muito tranquilo. Tinha passado por maus pedaços na vida antes de vir trabalhar em nossa casa. O pai não a permitiu estudar. O marido a deixou com dois filhos pequenos e foi embora para São Paulo...Então teve que se virar e criar os meninos sozinha. Disse-me que nessa época, morou em um barraco de lona, na beira de um córrego. Os adultos de sua casa tinham que sair para trabalhar. Não tendo com quem deixar as crianças, e necessitando muito trabalhar, temendo que ficassem na rua, ela os deixava em casa com uma missão: separar os grãos de feijão, milho e arroz que ela despejava numa grande peneira...Assim fazia todos os dias...Com o tempo, mudaram para uma casa melhor, em outro bairro de periferia.  Sempre a admirei por sua sabedoria: ao fazer isso com as crianças, ela os ajudou a desenvolver a coordenação motora-fina, a atenção e o senso de responsabilidade...Agora, são adultos, responsáveis. Ela se tornou avó. Esta quase aposentando aqui em casa. Nunca faltou ao trabalho, a não ser por causa de uma doença ou outra. Há dois anos, quando fiquei viúva e voltei a morar com meus pais, ficou apreensiva com o súbito aumento de serviço. Percebi logo pela sua expressão apreensiva ao me ver chegar com a pouca mudança, uma vez que me desfiz de quase tudo de minha casa. Ficou tranquila quando lhe garanti que teria uma ajudante nos serviços. Daí veio a irmã dela para ajudá-la duas vezes por semana. Dois anjos em nossas vidas. Minha mãe anda esquecida a contar as mesmas histórias de vida para elas. Elas as escutam sempre com aquele ar de surpresa, como se tudo o que ouvissem fosse a maior novidade, ao mesmo tempo em que oferecem um cafezinho novo, ou uma saladinha de frutas para ela. Elas piscam os olhos, em segredo, e sorriem. São de uma delicadeza ímpar... Nossas histórias se misturaram e realmente é uma benção conviver com as duas. Só tenho a agradecer, sempre!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Fênix?

"Esta decidido: quero morrer. Assim, sem exclamação, interrogação, reticências ou qualquer sinal outro que levante dúvidas sobre minha imperativa decisão. Quero desfazer-me de mim. Estou cansada. Preciso parar em definitivo. Chega. Basta. É um cansaço imenso de sempre ter que explicar-me a que vim. Não vim. Abri os olhos e vislumbrei uma janela entreaberta e decidi ir ficando. Mas cheguei ao meu limite nesse mundo. O que posso fazer? E já sei como fazer para que desfazer-me. Não falo. Emudeço-me. Se no princípio era o verbo, o fim é o não verbo. Nada de palavras. Nada de gestos. Nada de olhares. Nada de toques. A partir de agora serei apenas corpo a vagar até que um dia a Terra me absolva e livre-me de mim.
Por mais que peçamos, os mortos jamais retornam. Nem cheiro, nem um sopro dos seres que circularam cá. Isso é muito bom! Dívidas, doenças, vícios, desamores...Nada mais. Amores, esperanças, dias de sol e chuva...Nunca mais. E para quê afinal? Nada de respostas...Perguntas aos milhões...E o eco de mim como resposta...
Não quero mais morrer! Serei eterna em mim mesma. Outras trilhas se avizinham....Não há o que fazer a não ser seguir."